"Ponto de vista"- Há 50 anos, um "pré-Maio de 68" no Clube Militar Naval.


   Há 50 anos, um "pré-Maio de 68" no Clube Militar Naval.

Princípio de 1968.
António de Oliveira Salazar ainda não tinha sofrido a queda que levaria à sua substituição diversos  meses mais tarde.

Após uma das habituais reuniões da Comissão de Redacção dos Anais do Clube Militar Naval alguns dos seus membros ficam a debater a situação de modorra que consideravam existir no centenário Clube, e decidem aproveitar a circunstância de em breve haver eleições para novos Corpos Gerentes para se fomentar a apresentação de candidaturas alternativas às que habitualmente eram propostas - sem oposição - por iniciativa das Direcções cessantes.

Aproximava-se, contudo, a data das eleições, e não havia tempo para se prepararem listas e elaborarem programas de acção, pelo que a única forma de intervenção passaria pelo adiamento do acto eleitoral.

Foi então desenhada uma estratégia de intervenção processual na Assembleia eleitoral visando tal fim, a qual seria baseada no aproveitamento de disposições do Regulamento Interno do Clube, sendo para tal necessária a adesão de sócios não só para suscitarem o adiamento das eleições para dar tempo a que a Direcção informasse os sócios, por escrito, sobre a situação do Clube como também para elaborarem uma lista alternativa e respectivo programa eleitoral.

Iniciaram-se assim diversos contactos para a concretização destas intenções.

Entretanto, e por coincidência (diria até "feliz coincidência"), a Direcção cessante apresentou uma lista de candidatura que incluía o Almirante Tenreiro como Presidente da Direcção, personalidade que não suscitava muitas simpatias em muitos sócios do Clube por simbolizar uma ligação acentuada ao regime político de então (e que no Clube já havia sido objecto de apreciações pouco favoráveis, nomeadamente por parte do consócio Cyrne de Castro)

Ganhava então novo impulso a citada estratégia de adiamento processual das eleições, que foi aprovada numa primeira reunião por diversos sócios, nomeadamente Homem de Gouveia, Sá Vaz, Chagas Torre, Teixeira Gomes, Pessoa Lopes, Leite Novais, Nelson Trindade, José Silva Dias, Amaro de Oliveira, Carneiro Vieira, Barreto de Albuquerque, Alves de Jesus, e Queiroz e Lima, bem como Sousa Silva e Costa Correia - nomes recolhidos de diversos apontamentos, nomeadamente de Sousa Silva, e de Costa Correia.

E, pouco depois, nova reunião, em que também participaram, segundo os mesmos apontamentos, Balcão Reis, Oliveira Rego, A.Ribeiro Reis, Almada Contreiras, Carmo Silva, Silveira Pinheiro, Silva Santos, Sales Grade, Coral Costa e Vieira Pita (estes dois últimos, ainda cadetes) - apresentando-se desde já desculpas por imprecisões ou erros relativos a estas listas nominativas.

Foi então apresentado um projecto de "requerimento" a submeter à Assembleia Geral, que, depois de analisado e discutido pelos presentes, foi aprovado por unanimidade, tendo sido preparadas cuidadosamente as intervenções na assembleia: quem apresentava o requerimento  de adiamento referindo não ter havido tempo para a apresentação de candidaturas e programas eleitorais, quem citava os Estatutos e Regulamento Interno, quem defendia o requerimento, e, até, quem suscitava algumas observações. Apontamentos sobre a organização das intervenções que guardo ainda, dada a curiosidade de que se reveste este assunto...
Ainda recordo o espanto da Direcção cessante ao constatar, no dia 22 de Fevereiro, que em vez da habitual dúzia de sócios que comparecia aos actos eleitorais eram mais de 50 os presentes - que já incluíam outros prestigiados consócios, realçando-se Conceição e Silva, e Mário de Aguiar (para além de mais, igualmente relevantes e de quem infelizmente não me recordo), demonstrando assim que na Marinha havia uma geração que ansiava por mudanças democráticas.
E mais espantados ficaram com a organização regimental da grande maioria dos sócios presentes, não ousando rejeitar o que era proposto, e que viria a ser concretizado em 22 de Março seguinte com a eleição de uma Direcção presidida pelo distinto sócio Manuel Lopes de Mendonça, com um ambicioso programa que previa a organização de colóquios sobre assuntos técnico-profissionais, bem como de natureza cultural, sociológica, e económico-financeira, tendo no primeiro colóquio sido apresentados os principais aspectos técnicos das então novas fragatas da classe "Alm.Pereira da Silva" (de cuja Guarnição fazia eu parte).
Pouco tempo depois daquela Assembleia ocorria em França o famoso "Maio de 1968".
Seguiram-se, nesse mesmo ano, intervenções coloquiantes de Bénard da Costa, Urbano Tavares Rodrigues, e Sérgio Ribeiro - nomes que definiram perspectivas - e nos anos seguintes o Clube Militar Naval foi sede de profundos debates e acções que viriam a influenciar os pontos de vista dos participantes, obviamente com o concurso de muitos outros sócios que reforçaram a dinâmica criada em 1968, imprimindo igualmente novas dinâmicas às múltiplas iniciativas posteriores, bastando por exemplo referir que um Presidente da Direcção se chamava Pinheiro de Azevedo.
Meio século passa no presente mês sobre uma Assembleia marcante na vida de um Clube. Na vida da  Marinha. 
Do País.
11.Fevereiro.2018
(Ligeiras correcções em 13.Fev.2018)